sábado, 2 de abril de 2011

Inveja e Vergonha

Duas palavras muito ouvidas nos últimos tempos no Brasil. Mesmo estando longe do meu país, confesso que ao acompanhar as notícias, tenho agido dessa forma, usando muito essas duas palavras.

Inveja:

Ficar desejando as coisas dos outros e não fazer força nenhuma pra conseguir naturalmente e por merecimento.

Esse é o significado literal da palavra, mas não é bem o meu sentimento. Apenas desejo muito para o Brasil a força que o povo do Japão tem demonstrado depois de mais uma catástrofe que assolou aquele país. Acompanhar pela TV, pela internet a vontade e garra de técnicos que arriscam a própria vida para conter o vazamento de radiação em uma usina nuclear é comovente e invejável. Ver os diretores responsáveis pela mesma usina se curvarem diante do mundo pedindo desculpas pelo acidente provocado por um terremoto de grande escala, seguido de um tsunami é ainda mais invejável. No Brasil, como diz a música, “bonito por natureza”, que não enfrenta intempéries vistas em outras regiões do mundo, quando acontece um apagão que deixa metade do país sem energia por 18 horas, um representante do governo vai a TV 72 horas depois para culpar os ventos, a chuva ou um técnico qualquer que não ligou o disjuntor na hora certa. Ai sou obrigado a usar a palavra:

Vergonha.

Sentimento penoso por se ter cometido alguma falta ou pelo temor da desonra.

Quando vejo famílias no Rio de Janeiro perderem suas casas e suas vidas por causa das chuvas de fim de ano e o governo nada fazer para impedir no ano seguinte as mesmas consequências, sinto muita vergonha. Em um país sério, governador e prefeitos renunciariam aos cargos ou seriam processados por não cumprirem a sua função precípua que é a de cuidar dos interesses do povo que o elegeu. A vergonha é ainda maior, quando prefeitura e governo de estado, em questão de horas liberam milhões para salvar o carnaval da cidade. Dinheiro para conter encostas, para urbanizar favelas, para evitar mortes não existe, mas para o carnaval, não falta nunca. Em 2008, centenas de pessoas perderam a vida e milhares ficaram desabrigadas por conta das chuvas que caíram em Santa Catarina. O governo federal que havia prometido ajuda, até hoje, abril de 2011, três anos depois, sequer enviou as barracas para alojarem os desabrigados daquele ano. A mesma tragédia aconteceu em 2009, 2010 e de novo este ano. As redes sociais na internet hoje servem como válvula de escape para quem quer mudar as coisas e colocar a boca no mundo. O grande problema é que essas mesmas pessoas esquecem de tudo isso nos anos eleitorais. Sei que não são sentimentos bons, mas Inveja e Vergonha é o que eu sinto hoje.

Constâncio Viana

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ídolo Branco


O nome do cara é Matthew Booth, era o único branco da equipe Bafana Bafana, na copa de 2010. Com 1,98 m de altura bastava entrar no gramado para um jogo da seleção e se fazia silêncio ensurdecedor, segundos depois, vinha das arquibancadas, em uníssono, um longuíssimo "buuuuuuuuuu".
Para quem não é daqui, vaias a Booth, numa frustrante demonstração de que a nação arco-íris sonhada por Mandela não passa de um sonho? Mas não era nada disso. Um tímido aceno do jogador, um toque de primeira na bola eram suficientes para botar as coisas em seu devido lugar. Os fãs, na verdade, apenas celebravam o seu ídolo pelo nome: "Boooooooooth!"
O futebol tem dessas coisas. Unir as pessoas por mais diferentes que sejam. Quem poderia imaginar um povo na sua maioria negra, idolatrar um branco como faziam com Booth. Só o Parreira não gostava dele e durante a copa mal o deixou no banco de reservas. Hoje com 34 anos, ele se recupera de uma cirurgia no joelho e ainda assim é ídolo em todo país. Aqui as pessoas torcem por times de futebol, mas idolatram as pessoas. Matthew Booth é ainda hoje idolatrado por todos os torcedores, esteja ele jogando no time que estiver.
Hoje tive a honra de gravar uma entrevista com esse cara simpático e boa praça que nos recebeu antes de mais uma sessão de fisioterapia.

sábado, 19 de março de 2011

Moqueca Com Amigos






Quando moramos fora do país e sozinhos, sentimos falta de muita coisa: da família, filhos, dos amigos além de muitas outras coisas, entre elas uma boa comida. Aqui na África do Sul, os sabores são variados, encontramos muitos práticos típicos, comidas tradicionais a qualquer país, mas o tempero nem sempre é agradável. Basicamente tudo leva pimenta e em quase todos os pratos vem batata frita acompanhando. Procuro sempre que possível cozinhar em casa, mesmo que só pra mim. Em um sábado de folga, nada melhor que reunir os amigos do Brasil que vivem aqui para um jantar tipicamente brasileiro. Além da boa companhia claro, comer uma legítima Moqueca de Camarão, regada de arroz branco, pirão e farofa de dendê, plagiando o Mastercard, "Não Tem Preço". Tudo acompanhado de coca-cola e pudim de leite para sobremesa. A turma da foto como eu não é chegada a bebida alcoólica e faltou refrigerante e suco. Não pensem que vou passar a receita, isso é coisa de família e ficará guardado a sete chaves. Mas os ingredientes das fotos podem tomar nota: Camarão (muito), tomates, pimentões, cebola, alho, cheiro verde, leite de coco, azeite de oliva e azeite de dendê (unico que não se encontra nas prateleiras dos supermercados daqui). Agora a mistura disso tudo é que ficará em segredo. Posso garantir que ficou muito bom. Acredito que os meus convidados também gostaram, o Rodrigo fez até questão de lavar a louça. Pra variar fiz demais e vou almoçar a mesma coisa amanhã.

terça-feira, 15 de março de 2011

Alegria em uma Vida Simples






Essa semana voltei a Maputo, capital de Moçambique para uma série de matérias sobre brasileiros na África. Conhecemos alguns brasileiros por lá e algumas boas histórias serão editadas, porém, uma coisa que me chamou a atenção, a alegria que é vista no Brasil quando alguém começa a cantarolar uma música, quando se começa uma roda de samba, quando alguém dedilha um violão. Um dos personagens que encontramos por lá foi um cantor chamado Robson, simplesmente Robson. Ele mora em Maputo há pelo menos 17 anos é super conhecido por todos. Por onde passa é reverenciado, cumprimentado. Com a intenção de testar essa popularidade nós o levamos ao mercado do peixe, um lugar muito conhecido em Maputo e a festa foi geral. O cara cantou em Xangana, um dialeto local e o sucesso foi total. Em pouco tempo mesmo com tanto trabalho duro e o calor infernal mo mercado, as pessoas deixavam suas barracas e se juntavam em um pequeno espaço em um bar para dançar e cantar. Além de muito carisma o cara é super atencioso com todos. Uma receita de sucesso em qualquer parte do mundo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Afinação Africana

Tem tempo que não escrevo nada por aqui. Muito por falta de assunto, muito por falta de coragem mesmo, confesso. Na verdade, só resolvi escrever hoje porque me encantei com uma apresentação feita de graça, na hora do almoço em um restaurante típico aqui na África do Sul. Paramos para almoçar durante uma pauta e um grupo se aproximou perguntando se poderiam cantar pra gente. Eram cinco negros bem vestidos, de boina e muito swing. Como estava com a câmera, não podia deixar de gravar uma parte da apresentação. Os caras são tão bons que acabamos usando a trilha sonora para encerrar a matéria que falava sobre os benefícios deixados após a copa. Um dos benefícios abordados foi exatamente o bom astral que ficou. O link do vídeo anexado mostra um pouco disso.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Maputo 2

Quando cheguei na África do Sul, percebi que algumas coisas, claro, eram bem diferentes do Brasil. Uma específica é o atendimento em restaurantes. Ao contrário dos nossos bares e restaurantes, onde os garçons estão sempre dispostos, prestativos e até disputam os clientes no dia-a-dia, aqui é não é bem assim. Até me acostumar com isso, entrei várias vezes em alguns lugares e fiquei esperando a boa vontade de algum funcionário distraído passar por mim, me ver e perguntar se queria alguma coisa. Essa semana, estive em Maputo, capital de Moçambique e percebi que o atendimento em Johanesburgo é maravilhoso comparado ao de lá. No primeiro dia, fui almoçar em um restaurante português ao lado do hotel que estava. Na verdade, restaurante português é o que mais tem na cidade. Ao entrar, lembrei do Saraiva, aquele personagem (tolerância zero), quando o garçom me perguntou se eu queria almoçar. Resposta afirmativa, tive que perguntar onde poderia sentar. A comida até que é boa, mas em um restaurante cheio, com pelo menos umas trinta mesas, só vi três pessoas atendendo a todos. Claro, esperei uns trinta minutos pela comida e quase fiquei bêbado com tanta coca-cola. Nem um pãozinho é servido enquanto se espera o prato principal. Porém, a melhor parte foi no jantar. Também perto do hotel entrei em um lugar parecido com um bar, bem frequentado, arejado. Mesma história, ambiente grande, duas atendentes. Antes de chegar ao local, passei em uma farmácia, comprei um remédio pra dor de cabeça. Sentei, esperei e depois de uns cinco minutos uma moça, talvez por pena veio me atender, antes não tivesse aparecido, assim eu teria ido a outro lugar. Pedi a ela uma água para tomar o remédio, uma coca-cola e o cardápio. Depois de uns cinco minutos, sem água, sem coca, sem cardápio chamei a moça pra perguntar se ia demorar. A resposta foi um "não é rápido". De fato foi, ela esticou o braço no balcão e me trouxe o cardápio. Saiu de novo, foi na cozinha e veio com uma bandeja trazendo uma taça de vinho para a mesa ao lado. Detalhe: O pedido do casal era um vinho e um suco, ela só trouxe o vinho. Passados uns oito minutos, ela voltou com o suco e nada da minha água ou coca-cola. Segurei o braço dela e de novo pedi de novo a mesma coisa e reforcei dizendo que estava com dor de cabeça e precisava tomar o remédio. Aproveitei aquele momento difícil e fiz logo o pedido do prato que queria. A moça foi em direção a cozinha e voltou com uma garrafa d'água, mas não trouxe nem um copo e nem a coca-cola. Perdi a paciência: _ vem cá moça, vocês estão em greve? Aquela outra moça ali não pode atender também? Pra que duas ou três viagens se você pode trazer tudo ao mesmo tempo? Eu devo ir embora e voltar outro dia, dando um tempo pra chegar o prato? Quem é o proprietário disso aqui? Coitada a moça não voltou mais a minha mesa, mas foi ótimo, como por encanto apareceu um outro garçom que só levou dois minutos pra trazer a coca-cola e mais uns dez minutos pra trazer o prato. Não sei se cuspiram nele ou pior, mas no fim sai de lá sem fome, sem dor de cabeça e menos nervoso.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Maputo 01




Sei que já tem um tempo que não escrevo nada por aqui, as vezes por falta de assunto, as vezes por falta de tempo, falta de saco e até por falta de leitores, mas hoje resolvi colocar umas palavrinhas, porque apareceu um assunto interessante. Quando vim pra África, em maio desse ano, como todo mundo, não precisei de visto. Na África do sul se você é brasileiro, que ainda é o meu caso, basta ter tomado vacina contra febre amarela dez dias antes da viagem, ter o passaporte e poderá entrar no país e ficar por três meses sem problemas. Depois disso, ou você pede uma prorrogação por mais três meses ou sai do país e entra de novo. Como tinha ido ao Brasil em agosto, meu visto de turista foi prorrogado, mas venceu ontem, dia 02 de novembro. Como meu visto de trabalho ainda está sendo analisado pelo consulado Sul Africano em São Paulo, precisei sair de lá e vim parar em Moçambique; uma viagem de uma hora de avião ou quatro horas e meia de carro, partindo de Johanesburgo. Minha vinda seria exclusivamente para passar uma noite e voltar no dia seguinte. Assim renovaria meu visto por mais três meses. Tinha até combinado com uns amigos de fazer um jantarzinho em casa para comemorar meu aniversário. Tudo mudou, vou passar meu aniversário aqui. Já estava longe de todos na África do Sul, agora ainda mais longe estando em Maputo. Como na semana que vem teria que voltar para cobrir a visita do Lula com sua amiga Dilma aqui em Moçambique, ficou mais fácil e mais barato continuar por aqui. Para sorte dos meus quase dois leitores, isso será motivo para mais alguns posts. Amanhã vou contar um caso interessante sobre o atendimento em restaurantes daqui.

sábado, 2 de outubro de 2010

Morrer é complicado






Essa semana fui a Durban, cerca de quinhentos e cinquenta quilômetros de Johanesburgo para gravar um entrevista com o administrador dos cemitérios da cidade. São cerca de sessenta cemitérios, mas só doze ainda tem espaço para enterrar os mortos. Imagine você ser responsável pelo enterro de milhares de pessoas que morrem todos os anos e não ter onde fazer isso. Uma profissão meio mórbida, mas necessária. Pra se ter uma idéia, uma cerimônia funebre aqui pode durar até sete dias e custar cerca de seis mil reais. Já uma cremação não custa mais que cento e cinquenta reais. Mesmo assim isso não atrai o interesse das famílias, porque a tradição e a cultura dos negros aqui na África do Sul, acredita que os mortos devem ser enterrados e não cremados. Os cemitérios que ainda podem receber os mortos totalizam cinquenta mil vagas, mas morrem em média vinte e cinco mil pessoas por ano. Com isso, em dois anos não haverá mais onde enterrar os mortos. As autoridades locais já pensam inclusive em enterrar os mortos na posição vertical pra ocupar melhor os espaços ainda existentes. Outra medida é que os corpos enterrados há mais de dez anos, devem ser retirados das covas, abrindo assim novas vagas para os futuros inquilinos.
Definitivamente eu não pretendo morrer aqui.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Cachorrada

Normalmente, quando escrevo alguma coisa aqui, costumo ilustrar com fotos. Hoje porém, mesmo eu querendo fazer isso, não conseguiria. É que o assunto de hoje é criação de cachorros. No Brasil, em qualquer parte que se vá você encontra um monte de cachorros nas ruas. Soltos ou em coleiras eles estão em todos os lugares. Aqui não é bem assim, a coisa mais difícil de se ver é cachorro, seja vira-latas ou de raça. Um dia desses li em um blog, que um casal em uma cidade aqui perto, chamada Sun City, estava criando uma Hyena em casa. Passei a observar por toda parte que vou e realmente não vi cachorros por ai. Ainda se fosse na china, pelo que ouvi falar lá se come tudo que tem quatro pernas, só não comem mesa e cadeira. Hoje fui a uma favela aqui chamada Alexandra, já falei sobre ela antes e percebi que cachorro lá são as cabras e os bodes que andam livremente pelas ruas. Não sei bem a razão, mas talvez o clima aqui não seja bom para os cachorros e de quebra também não deve ser para os veterinários.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Parque Nacional Kruger






Uma reserva que é do tamanho da Bélgica. Esse é o Parque Nacional Kruger, que só na África do Sul ocupa uma área de dois milhões de hectares e se estende por Moçambique e Zimbabwe. O local é ideal para quem quer ver a vida selvagem ao ar livre. Um destino exótico e surpreendente. A infraestrutura da reserva impressionante. Existe uma espécie de lojinha de conveniência dentro do parque, o Skukuza, onde podemos fazer uma parada para fazer um lanche antes de seguir em frente no passeio. No mesmo local tem também podemos comprar lembrancinhas em uma loja que disponibiliza uma grande quantidade e variedade de produtos com a marca do parque. Para os mais aventureiros é possível passar a noite em chalés que existem no local. O valor da entrada para cada turista é de cento e sessenta Rands, cerca de quarenta reais. Os sul-africanos pagam apenas quarenta Rands, dez reais. O Parque Nacional Kruger é uma das mais antigas reservas naturais do mundo e a mais importante reserva de todo o continente africano. Aqui estão abrigadas em um só local a mais significativa área de conservação da fauna da África do Sul. O parque é considerado o melhor local para a realização de safáris de observação da vida dos animais selvagens. O Kruger é conhecido como “território dos Big Five”, como são chamados os cinco mamíferos de grande porte: leão, búfalo, elefante, leopardo e rinoceronte. Na África do Sul a imagem desses animais é estampada nas cédulas e nas moedas de Rands, o dinheiro local. Em uma visita rápida não é possível conhecer tudo. As trilhas dentro do parque são enormes e a observação, claro, só se pode ser feita dentro do carro. Em vários momentos a proximidade dos animais chega a impressionar. Com um pouco de sorte é possível chegar a poucos metros de zebras, elefantes, girafas, gnus, nyalas e rinocerontes. Alguns animais como a cheetah, leões, hyenas e hipopótamos só mesmo com muito tempo e seguindo o mapa que é disponibilizado na entrada do parque. O parque Nacional Kruger fica cerca de quatrocentos quilômetros de distância de Johanesburgo, quatro horas e meia de carro, as estradas são bem conservadas mas nem todo o percurso é duplicado.